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Um país azul e vermelho? Ou dividido em 11 nações?

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 ELITE-NWO-MASSA-IGNORANTE-E-POBRE

 

O livro do jornalista e historiador Colin Woodard não foi o primeiro a distinguir as nações americanas, apresentadas por Joel Garreau em 1981. Mas foi o primeiro a lhes dar substância histórica

HELIO GUROVITZ

A divisa dos Estados Unidos – e pluribus unum; “de muitos, um” – encerra o mito fundador do país: a capacidade de absorver diferentes culturas numa só nação, com valores comuns. Mas quem acompanha há algum tempo as eleições americanas se acostumou ao mapa que mostra um país dividido, pintado em duas cores – o azul democrata e o vermelho republicano. O azul recobre a Costa Oeste e quase toda a Costa Leste, deixando a maior parte do interior em vermelho. Candidatos que mobilizam grupos específicos, como o democrata Barack Obama ou o republicano Donald Trump, puxam as cores de um ou outro estado para lá ou para cá. Ora um é classificado como ciano (Pensilvânia), ora como cor-de-rosa (Ohio). Uns poucos são coloridos de roxo (Flórida). Mas, apesar dessas nuances, a imagem de uma nação bipartida entre dois polos extremos – “liberais” e “conservadores” – está tão consolidada que a polarização se tornou um dos maiores focos de estudos na ciência política. Só que não passa de simplificação.

“As divisões mais essenciais e duradouras na América não são entre estados azuis e vermelhos, conservadores e liberais, capital e trabalho, brancos e negros, religiosos e laicos”, escreve o jornalista e historiador Colin Woodard em American nations: a history of the eleven rival regional cultures of North America (Nações americanas: uma história das 11 culturas regionais rivais na América do Norte). “Os Estados Unidos são uma federação constituída do todo ou de parte de 11 nações regionais, umas nem querem ver as outras pela frente. Não respeitam fronteiras estaduais nem internacionais, transbordam para Canadá e México com a mesma tranquilidade com que dividem Califórnia, Texas, Illinois ou Pensilvânia.” Seis se uniram para formar o país no século XVIII, outras foram absorvidas depois, uma foi expulsa (os índios) – mas todas já existiam antes da independência. Para Woodard, nove exercem influência política até hoje. A história narrada por ele é uma sucessão de coalizões em torno das duas mais poderosas. Poderíamos chamá-las de coalizão azul e vermelha, embora não correspondam com exatidão aos territórios do mapa eleitoral. Seu equilíbrio instável foi abalado pela candidatura Trump.

A base da coalizão azul reúne, desde o final da Guerra Civil, três nações descritas por Woodard: 1) Ianques – legatários dos puritanos que colonizaram a Nova Inglaterra, expandiram sua visão comunitária pelo continente; 2) Nova Holanda – corresponde à cultura singular, capitalista, cosmopolita e tolerante implantada pelos holandeses em Nova York; 3) Costa Oeste – colonizada por ianques, adquiriu deles o princípio comunitário, mas, abalada pela corrida do ouro, sofreu influência de outros grupos. A base da coalizão vermelha reúne três outras nações: 1) Sul Profundo – legatário da tradição escravocrata, baseava sua essência no racismo e no domínio de grupos étnicos considerados inferiores; 2) Tidewater– sociedade de castas, comandada por aristocratas da Virgínia, escravista mais por conveniência que convicção, baseava sua visão política na democracia de elites da Grécia Antiga; 3) Apalaches – região do povo da montanha, os “hillbillies”, marcada pela pobreza extrema, pela cultura violenta, pelo desprezo à formação intelectual e pela revolta ancestral de colonos escoceses e irlandeses contra quem se metesse com eles.

O poder flutuou de uma a outra coalizão segundo a inclinação de três outras nações: 1) El Norte – área contígua ao México (incluída parte dele), a primeira colonizada por hispano-católicos, recuperou o protagonismo com a infusão de imigrantes latinos; 2) Oeste Bravio – região inóspita e desértica, última a ser colonizada, onde, apesar da dependência histórica do Estado, prosperou o ideal de liberdade individual; 3) Midlands – influenciada por colonos quacres da Pensilvânia e imigrantes alemães, conhecida pelo pacifismo e pela não intromissão em assuntos alheios. Duas outras nações historicamente importantes – a Primeira Nação, indígena, e a Nova França, canadenses e colonos da Louisiana – perderam influência.

O livro de Woodard não foi o primeiro a distinguir as nações americanas, apresentadas por Joel Garreau em 1981. Mas foi o primeiro a lhes dar substância histórica. Woodard foi criticado por lapsos factuais e por diminuir a importância da onda de imigrantes no século XX. Woodard considera que, com exceção dos latinos, todos foram absorvidos pelas nações onde se instalaram. Sua análise, apesar das limitações, ajuda a entender o país melhor que o esquema simplório, azul e vermelho. O discurso chauvinista de Trump, sob medida para o público dos Apalaches, do Oeste Bravio e do Sul Profundo, é visto com resistência na aristocracia de Tidewater. Também levou os norteños a buscar abrigo em massa sob a tenda ianque. A escolha do próximo presidente depende do voto de minerva que Woodard localiza em Midland, território que começa na Pensilvânia e se estende por uma faixa fina, até o Meio-Oeste. Foi lá que floresceu a candidatura de Abraham Lincoln – e é lá que Trump tenta perfurar a fortaleza eleitoral de Hillary Clinton.


Link para a matéria completa:

http://epoca.globo.com/cultura/helio-gurovitz/noticia/2016/11/um-pais-azul-e-vermelho-ou-dividido-em-11-nacoes.html

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