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 UMA CULTURA QUE NÃO ESTÁ NOS MUSEUS

Los Mapuches No Existen

Fotografia de Jorge Figanier Castro.

Fotografia de Jorge Figanier Castro.

Ouvi a frase “los mapuches no existen” numa conversa de amigos pouco
depois de ter chegado a Santiago do Chile com a ideia de fazer um trabalho
sobre a condição mapuche naquela cidade. A frase, lançada numa entrevista
por um reputado historiador chileno, Sergio Villalobos, referia-se à
inexistência de mapuches “puros”. Eu coloco aspas no adjetivo mas na frase
original e no seu sentido não tinha: “En Chile, indígenas puros propiamente
no existen”.
Noutra conversa, já bastante depois da minha chegada, com uma família
mapuche, perguntaram-me “qual é a situação dos indígenas no teu país?”. E
esta pergunta inocente, que me levou a sorrir, pareceu-me tão inocente como
a ideia de que não existem mapuches sem aspas na pureza.
Na minha chegada a Santiago pensei que os mapuches iam estar ali,
disponíveis para serem abordados por um português com uma máquina
fotográfica sôfrega. Ia com vontade de conhecer essa gente da terra
(tradução do mapundungun da palavra mapuche: mapu – terra, che – gente)
que resistiu à conquista espanhola, que obrigou o inimigo a reconhecer em
tratado uma fronteira duradoura. Contudo, demorei algum tempo a perceber a
realidade de um conflito que perdura e que levanta desconfianças e
preconceitos. Andei às “apalpadelas” atrás de alguém que me pudesse
explicar os cartazes de protesto espalhados pelo centro da cidade e que
reclamam terras e liberdade a um povo que aparece no artesanato típico do
país, numa espécie de tentativa folclorizada de homenagear uma “pureza”
cultural desaparecida, de um povo que o Chile reconhece na sua história, um
pouco na sua identidade, muito pouco na sua sociedade atual.
No tempo em que estive no Chile, entre 2007 e 2009, os jornais faziam
manchetes sobre a morte do ativista mapuche Matías Catrileo, numa disputa
de terras no sul do país com a polícia. Algumas associações na cidade são a
voz das comunidades em conflito no sul e reclamam a independência de
Wallmapu, a nação mapuche antes de ser apagada do mapa pelo exército
chileno em finais do século XIX, numa ação que ficou conhecida como
“Pacificação da Araucanía”.

Mulheres mapuches. Fonte: Universidad Alberto Hurtado.

Mulheres mapuches. Fonte: Universidad Alberto Hurtado.

Mas os mapuches não falam a uma só voz, e por isso conheci quem
coordenasse associações que recebem verbas do governo para as suas
atividades, conheci independentistas, conheci mapuches católicos,
evangélicos, de direita e de esquerda. Esta liberdade de ser mapuche foi
também o que lhes permitiu resistir ao inimigo: quando os espanhóis
matavam um longko (líder de uma comunidade mapuche que em
mapundungun significa cabeça) havia muitos mais líderes, de outras
comunidades, que se organizavam para a batalha seguinte.
Demorei algum tempo a conhecer esta pessoa que me levou à outra, que me
convidou para uma cerimónia, que me apresentou uma outra que me falou do
mapundungun (língua mapuche), que me levou a uma mesa e me deu a
provar muday (bebida à base de cereais), me ensinou a tocar trutruka
(instrumento tradicional mapuche), e me explicou que para os mapuches
Nguenechén é deus e está na natureza.
Consegui ao longo de dois anos ganhar a confiança de algumas pessoas que
me abriram a porta das suas casas, que perceberam que a minha ignorância
era sincera e que por isso foram bastante generosos. Eu, no final, com
pastas e pastas de fotografias, senti que não seria fácil mostrar aquele que
foi o elemento comum das várias realidades e formas de estar na cultura
mapuche que encontrei: a discriminação. Aquela que ignora a existência de
uma cultura forte, de quase 800 mil pessoas, que pratica os seus rituais nos
baldios da periferia, que se reúne para falar mapundungun e ensiná-lo aos
seus filhos, que viaja regularmente para os “seus lugares” do sul, lugares
com nomes estranhos que dão nome às grandes avenidas da cidade de
Santiago, que as assimilou sem saber que o invisível do seu significado é
parte da história atual do seu país.

Jorge Figanier Castro (neste link poderá ver o documentário do fotógrafo português: Los Mapuches no Existen)

A Guerra de Arauco

 Em 1460 e novamente em 1491 os soberanos Incas enviaram exércitos para sul do rio Maule numa tentativa de completar a subjugação da costa oeste, integrando-a no Tawantinsuyu incaico. De ambas as vezes, os Incas depararam-se com forte resistência por parte dos araucanianos, terminando por fixar a fronteira sul do seu império no rio Maule, com duas fortalezas guardando a região. A resistência Mapuche, juntando os seus aliados Huilliche, Picunche e Cuncos iria também desafiar durante 300 anos a coroa espanhola com sucesso; vindo esta a reconhecer a autonomia dos seus territórios, em 1641, através do tratado de Quilín e após um extenso conflito conhecido como a Guerra de Arauco.

Gravura de Gerónimo de Bibar na sua crónica e relação copiosa e verdadeira dos reinos do Chile. Note-se como os guerreiros mapuches são representados como estando completamente despidos...

Gravura de Gerónimo de Bibar na sua “Crónica e relação copiosa e verdadeira dos reinos do Chile”. Note-se como os guerreiros mapuches são representados como estando completamente despidos…

Opondo-se aos hispano-crioulos do reino do Chile, pertencente ao Império Espanhol, os mapuche e seus aliados preservaram os seus territórios na zona de conflito, entre o rio Bío-Bío e o golfo de Reloncaví; principalmente entre Concepción e a zona costeira da actual VIII Região de Bío-Bío e a IX Região de Araucanía. Esta tenaz resistência que sacrificou três quartos da sua população – pela fome, guerra e infecções exógenas – fez com que no século XVI os mapuche, de entre todos os grupos indígenas da América Latina (se não de todo o continente americano) fossem os únicos a conseguir uma autonomia territorial face ao Império Espanhol. Este contacto, no entanto, alterou a estrutura social mapuche. As mercadorias coloniais começaram a penetrar no seu território e, simultaneamente, a criação extensiva de gado, adoptada pelos indígenas, tornou-se no fio condutor de um mercantilismo no interior da Araucanía. A organização social, que até então permanecera descentralizada, sem classes e sem acumulação, foi fortemente transformada. A troca de mercadorias incentivou a existência de uma divisão social do trabalho, assim como a criação de produtos excedentes que levaram a alterações no seu sistema político. O poder intra familiar começou a ser concentrado na mão dos úlmenes ou mapuche nobre, rico, culto, pessoas de influência através da acumulação da riqueza.

Essas e outras alterações na sociedade mapuche impulsionaram um fluxo migratório em direcção ao planalto leste, entre os séculos XVII e XIX. Os historiadores chamam a este processo a “araucanização das pampas”, pois as outras etnias de caçadores-recolectores que aí viviam tiveram uma forte influência da cultura mapuche. Esta “transculturação” favoreceu a formação de uma grande territorialidade mapuche, espaço de unidade linguística e cultural, desde o Oceano Pacífico até ao Atlântico. Mas a Guerra de Arauco não tinha terminado e, após a independência do Chile e da Argentina, os territórios autónomos foram invadidos por destacamentos militares republicanos, a pretexto de pacificação, sendo a população mapuche confinada em “reduções” no Chile e a “reservas” na Argentina.

 Os Mapuche históricos

 O Sul do Chile, compreende desde o rio Itata até ao Cordão de Mahuidanche-Lastarria; região dominada por florestas de carvalhos, arbustos e pastagens, apresentando boas condições para o assentamento humano devido há possibilidade de recolher elementos silvestres como tubérculos, praticar a agricultura e desenvolver a pastorícia. Nesta região existem lagos, o mar tem uma grande riqueza piscícola e a Cordilheira dos Andes diminui a sua altura, apresentando sítios abaixo dos 1000 m que facilitaram os contactos interétnicos com os grupos caçadores orientais.

Gravura representando uma família mapuche.

Gravura de F. Lehmert, 1854, representando uma família mapuche. Atlas da história física e política do Chile por Claudio Gay in Memória Chilena. Fonte: Wikimedia commons.

O sector meridional estende-se desde Mahuidanche-Lastarria até ao golfo de Reloncaví. Lugar de costas escarpadas, a precipitação elevada resulta no predomínio de florestas verdes, cerradas e obscuras, pouco aptas à ocupação humana, com excepção da baía do rio Valdivia. A Pré-Cordilheira apresenta grandes lagos que brindam recursos de caça e recolecção, assim como uma infinidade de passagens para Este.

 A zona Sul foi o território dos grupos araucanos ou mapuches históricos, reconhecendo-se dois complexos funerários pré-araucanos.

O complexo Pitrén – que data de 600 a 1100 d.C. – estendia-se desde a bacia do Bío-Bío até à ribeira Norte do lago Llanquihué, onde se encontra a primeira ocupação agro-oleira do Sul do Chile.

Considera-se que a sua constituição social se baseava em grupos familiares reduzidos com movimentos sazonais coincidentes com os ciclos aptos para a caça de camelídeos, veados e fauna menor. A recolecção de frutos, como os da araucária, foi importante e possivelmente cultivaram batata e milho em pequenas hortas, considerando-se que neste período começou a domesticação de camelídeos nesta zona.

Este complexo está estreitamente relacionado com o Período Formativo dos Andes meridionais, em particular com as culturas do noroeste argentino; compartindo também algumas características com o complexo Llolleo. Ainda que o complexo Pitrén possa ter antecedentes setentrionais, deve ter-se conformado sobre um substrato de grupos recolectores prévio, estabelecendo uma base sobre a qual se desenvolveram as outras culturas agro-oleiras da região.

 O complexo Vergel – de 1100 a 1300 d.C. – ocupou principalmente o vale compreendido entre os rios Bío-Bío e Toltén. A origem deste complexo pode ser situado nos processos culturais contemporâneos que sucediam no centro do Chile. Usaram os cursos dos rios para o regadio das suas plantações; a domesticação de camelídeos já estava consolidada porém, a caça e a recolecção, mantiveram um papel importante na sua economia. Os cemitérios eram pequenos, realizando enterros de adultos e crianças em urnas. Outra modalidade funerária foi o enterro em posição estendida, rodeada de pedra. A modalidade de enterros em urnas supõe a chegada de elementos culturais estrangeiros. As oferendas incluem cerâmica monocromática em vermelho sobre branco, vasos utilitários, aros de cobre, prata e ouro, pedras trabalhadas, cachimbos e escultura lítica antropomorfa.

A morfologia da sua cerâmica é basicamente do complexo de Pitrén, não existindo indícios se as peças de metalurgia eram de cobre nativo ou se foram antes produto de intercâmbio.

mapuches 5

Gravura representando o interior de uma ruka – habitação – mapuche onde um xamã intervém sobre um paciente (defunto?). Fonte: Internet.

A cultura mapuche histórica – que abarca de 1300 a 1600 d.C. – figura nas primeiras crónicas da invasão como um povo muito numeroso que habitou vastas regiões ao Sul do rio Itata. Na região meridional sobrepuseram-se directamente ao complexo de Pitrén.

Mantiveram uma horticultura rudimentar pelo método de roça; cultivaram a batata, o milho, feijão e quinoa. Os recursos do litoral marítimo e a recolecção continuaram a ser importantes, dos quais o fruto pehuén ocupou um lugar de primazia. Estima-se que para este período iniciou-se uma pastorícia incipiente, baseada na domesticação do chilineke, um camelídeo distinto do lama e da alpaca. Devido à sua escassez, a possessão de um rebanho destes animais conferiam ao seu dono um grande prestígio. Os cães também foram uma espécie importante como meio de intercâmbio e alimento.

 O núcleo social era constituído na base de famílias extensas, com vínculos de parentesco fundados na linha patriarcal, reconhecendo as suas origens nos antepassados míticos. No entanto, a sua sociedade não era hierarquizada, sendo do tipo igualitário. Os xamãs – ou machi – gozavam de grande prestígio e eram encarregados da cosmogonia e a reafirmação da identidade. Os seus assentamentos foram dispersos e, no geral, eram móveis pelo que os seus enterros se encontram dispersos pela costa, vales, Pré-Cordilheira, Norte e centro de Neuquén. Não apresentam um padrão definido, porém, ao contrário dos seus antecessores, não sepultaram em urnas, podendo os seus cemitérios conter cerca de 100 indivíduos, acompanhados de uma grande quantidade de cerâmica.

 A Patagónia chilena é o território compreendido desde o Canal de Chacao até ao Cabo de Hornos que, nos tempos históricos, era habitada pelos huillices na ilha maior de Chiloé, os chonos desde Chiloé até à Península de Taitao, os alakaluf desde o Golfo de Penas até ao Estreito de Magalhães, os yámanas no Canal de Beagle e osonas ou selk’nam na Terra do Fogo.

EXCELENTE! MUITO BOM ESTE VÍDEO.

EXCELENTE MUITO BOM

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