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As nossas teorias, certezas, preceitos e os índios

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Grupo de indígenas, de recente contato, que vivem nas cabeceiras do Xinane – Foto: Funai

José Carlos Meirelles

Houve um tempo, na história do indigenismo oficial, em que a política em relação aos povos indígenas que ainda não tinham contato regular conosco era de buscar o relacionamento com eles. Usava-se o brinde, ou presente, para atraí-los. Isto se dava pela necessidade que NÓS tínhamos de abrir espaços para a expansão das atividades agrícolas e extrativas no território nacional.

A partir daí, ou ao mesmo tempo, havia que se criar uma teoria para dar legitimidade à ação do estado. E quando se cria teorias sempre alguém cria uma contrária e a peleja intelectual produz pérolas e, às vezes, porcos.

E lá estavam os índios levando tranquilamente sua vida de índio, caçando, pescando, festando, procriando e teorizando também sobre a nossa existência. Alguns considerados radicais ou reacionários dizendo que não se deve aproximar desse povo estranho que cada dia está mais perto das malocas. Outros mais abertos às novidades, buscadores de alguns instrumentos de ferro, que até os reacionários usam, pensam em um dia conversar conosco.

O que ocorria é que antes dos índios decidirem nós os metíamos em nossas teorias e saíamos atrás deles para fazer contato. Do nosso ponto de vista tudo estava bem, pois os índios é que tem que se adequar as teorias escritas por doutos e renomados cientistas. Cada um com suas armas. O Estado estribado na teoria científica e nós, indigenistas∕sertanistas, com o paneiro cheio de presentes.

Indígena contatado pela Frente de Proteção Etnoambiental Envira, em junho de 2014 - Foto: Funai
Indígena contatado pela Frente de Proteção Etnoambiental Envira, em junho de 2014 – Foto: Funai

E lá se foram mais de oitenta anos de encontros e desencontros com os índios arredios, como eram chamados outrora. Bem mais desencontros do que propriamente encontros. Morreram muitos, enlouqueceram vários, etnias reduzidas a dezenas de pessoas, territórios prometidos não assegurados, evangelização de todas as vertentes e transformação em mão de obra, quando não escrava, barata. Não demos a eles tempo para decidirem e muito menos para se adaptarem.

O tempo foi passando e o Estado muito alegre e contente com os “resultados”. Grandes áreas de terras livres para exploração e o progresso. Os executores da política, a turma que fazia os contatos, logo percebeu a catástrofe que provocava e questionou as teorias. E mudaram. Em 1987, o paradigma em relação aos “índios arredios”, que passaram a “não contatados” e mais recentemente a “isolados”, mudou. A política deveria ser a proteção. E o Estado aceitou a sugestão.

Mais tarde, outros Estados da América Latina adotaram também a política da proteção. Afinal, ela vinha com terminologia nova, avalizada por volumosos artigos de especialistas e doutores. Terminologias novas, assim como ideias, são mais aceitas e dão um tom de inovação e modernidade. A maioria dos países onde os territórios dos povos isolados são considerados área do Estado, estavam saindo de tempos escuros de regimes militares.

Indígenas Mashco Piro interagindo com agente de proteção indígena contratado pelo governo peruano – Foto: Waldo Maldonado

E ao mesmo tempo, a academia tratou de produzir teorias para sustentar a nova ação estatal. Afinal, um bando de sertanistas que passavam a vida na floresta, nenhum com título ou tese defendida, jamais poderia executar algo que não fosse estribado por teorias científicas. Feito isso, lá se vão, de novo, grupos de indigenistas e sertanistas proteger os isolados. E até que demarcaram alguns territórios para povos isolados, sem fazer contato, com boa dose de acerto, o que se verá mais tardiamente.

Alguns grupos que foram protegidos aumentaram de população e outros, esquecidos em nome da economia de recursos humanos e financeiros, se reduziram ou foram extintos.

O tempo, medida única e inexorável do universo, passou e entramos no século XXI certos, de novo, que os índios se adequaram às nossas teorias, por descuido, arrogância ou distração em não ver os sinais que nos davam. E lá pelas matas, os isolados discutiam se deviam ou não nos civilizar. Como é de costume estas discussões são demoradas sempre entre os conservadores e os mais jovens.

Mas como sempre entre a teoria e a realidade, a lei e o cumprimento da lei, existe um abismo cavado com nossas mãos, com a ferramenta da ganância e do consumismo, os espaços dos povos isolados diminuem a cada dia. Cada vez mais encontros de nossas frentes de expansão com os isolados ocorrem. A exploração de madeira, a procura por terras do agronegócio, a mineração, a construção de hidrelétricas e a produção de cocaína diminuem seu território. Sempre junto com estas atividades uma nova estrada, linha de transmissão ou oleoduto são construídos para escoar a produção.

Indígenas Mashco Piro, que vivem no alto rio Madre de Dios, no Peru - Foto: Waldo Maldonado
Indígenas Mashco Piro, que vivem no alto rio Madre de Dios, no Peru – Foto: Waldo Maldonado

Num outro cenário, de um território preservado, onde a política de proteção deu certo, os índios aumentam sua população e por consequência a procura por tecnologias como facões, machados, panelas, só para citar os mais cotados, aumenta consideravelmente. A pressão sobre o entorno dessas populações composta de índios contatados, comunidades tradicionais, ou frentes de expansão, aumenta consideravelmente. E se na melhor das hipóteses nenhum conflito ocorrer, os índios um dia irão conversar com o novo bom vizinho que protege seu território.

E ainda há outro fator que não levamos em conta. A curiosidade humana. Quem, vivendo ao lado de uma base espacial alienígena, de onde decolam e pousam, o dia todo, discos voadores com tripulações das mais variadas, não terá curiosidade de se aproximar e conversar com essas pessoas?

Os índios não são diferentes de nós.

-Como funciona um barco a motor? Como se faz um machado? O que há dentro de uma lanterna? Máquinas que andam? Coisas que não são pássaros que voam? Porque pessoas donas de tantas maravilhas nos matam sem motivos?

São perguntas que podem ser respondidas simplesmente perguntando a nós. Isso, tecnicamente, é chamado de primeiro contato.

E ele está ocorrendo em vários lugares. E novamente estamos sem uma teoria que dê sustentação a ações para que estes últimos índios isolados do planeta tenham um encontro digno conosco.

Algumas já surgem aqui e ali. Mas ainda prevalece o pensamento daqueles que se agarram à velha teoria da proteção achando que os índios tem que se adequar à teoria e não fazer contato. Só esqueceram de avisar os índios!

Cometemos erros terríveis por meter os índios em nossas teorias. Os que foram contatados, ou atraídos como se dizia antigamente, passaram a ser metidos em outra classificação. Contatados, aculturados, ressurgidos e vai por aí afora. O resultado é conhecido. São os Guarani de Mato Grosso, os índios do sul do país, os expulsos por barragem, os excluídos por obras de infraestrutura, os mortos por madeireiros, os executados por cocaleiros e os envenenados pelo agronegócio.

Erramos todos. Os teóricos, os praticantes do indigenismo e as organizações não governamentais. Os primeiros por arrogância acadêmica, os segundos por intuir ações isoladas, perdidas no isolamento das distâncias amazônicas e os últimos, novatos na clarividência, por projetos com nomes pomposos elaborados por especialistas onde os índios são metidos sem entender muito bem o motivo.

Entramos na segunda década do século XXI. A última década onde existirão povos ditos isolados. A década dos contatos, segundo a profecia de meu compadre Txai Terri Aquino.

Países vizinhos, como o Peru, estão começando a cuidar dos Mashco Piro que aparecem frequentemente no alto rio Madre de Dios, em frente ao posto de controle Mashco, onde sempre há bons intérpretes Yine, homens e mulheres, antropólogos e trabalhadores. Os Mashco vão bem até agora. Andei por lá a convite do Vice Ministério da Interculturalidade e vi de perto esse novo trabalho. Problemas sempre existirão, mas o diálogo com os Mashco flui na velocidade dos índios. Isso é alentador.

É certo que no geral alguns acertos foram conseguidos. Errar sempre é tão ou mais difícil que acertar. Mais por conta da resistência dos índios do que por nossas ações. Aí estão os povos indígenas que restaram lutando para existir com dignidade.

Tudo por conta de nossa arrogância em não perguntar-lhes como querem viver e da nossa incrível ganância em consumir até o último recurso deste planeta.

Aos que estão nos conhecendo agora, os já metidos na classificação e nas teorias dos recém-contatados, poderíamos deixar de lado todas as nossas certezas e conversar longamente com eles sobre o que pensam da vida. E ao mesmo tempo ouvir a opinião do entorno, na maioria das vezes composto por índios contatados que compartilham território com seus parentes “brabos”. E se o que pensam ser viver bem for incompatível com nosso mundo, pelo menos sejamos honestos e lhes digamos a verdade. Em termos politicamente corretos seria uma “consulta prévia e informada para genocídio assistido”.

Afinal é Carnaval. Os blocos estão na rua. E tem folião fantasiado de índio, sem ter a mínima ideia do que isso quer dizer.

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