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Antes de Cabral, Amazônia chegou a ter 8 milhões de índios

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REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Amazônia, berço de civilizações? Se a expressão soa estranha aos seus ouvidos, é porque as descobertas recentes sobre o passado da maior floresta tropical do mundo ainda não tinham sido reunidas num conjunto coerente.

Um grupo de pesquisadores brasileiros e americanos fez exatamente isso -e concluiu que, antes de Cabral, a região amazônica já estava fortemente “domesticada”, e não intocada, como muita gente acredita.

As conclusões da equipe, liderada por Charles Clement, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus) estão em artigo na revista científica britânica “Proceedings B”.

Os dados mais recentes apontam, segundo eles, que mais de 80 espécies de plantas selvagens foram transformadas em cultivos agrícolas pelos povos nativos da Amazônia -as mais conhecidas são o cacau, a batata-doce, a mandioca, o tabaco e o abacaxi, além das que ainda são tipicamente amazônicas, como o açaí e o cupuaçu.

  Douglas Cometti/Folhapress  
Peça de cerâmica Marajoara brasileira no Museu de História Natural de Nova York, EUA. (Nova York, EUA, 20.08.2014
Peça de cerâmica Marajoara brasileira no Museu de História Natural de Nova York

A impressionante lista de lavouras “inventadas” pelos indígenas conta só parte da história, porém. Os habitantes originais da região parecem ter domesticado, em certo sentido, até as florestas aparentemente não habitadas por seres humanos.

Isso acontece porque esses povos manejavam a distribuição natural de espécies da mata, favorecendo a predominância de espécies que eram úteis para eles, como as castanheiras que produzem a castanha-do-pará.

Ao longo do tempo, além das plantações propriamente ditas, eles passaram a ficar cercados por “florestas antropogênicas” (ou seja, geradas em grande medida pela ação humana) que facilitavam um bocado sua vida.

GENTE PARA TODO LADO

Esse processo de progressiva domesticação da mata teria ganhado impulso a partir de uns 4.000 anos atrás e, com o tempo, encheu a região com uma população respeitável. Os pesquisadores calculam que a Amazônia pré-cabralina teria abrigado ao menos 8 milhões de habitantes -um número que só seria alcançado pelo Brasil “branco” (somando os moradores de todas as regiões do país) no fim do século 19, segundo dados do IBGE.

A presença de toda essa gente está sinalizada por indícios arqueológicos espalhados de leste a oeste e de norte a sul do território amazônico. Na ilha de Marajó, na foz do Amazonas, um sistema de morros artificiais e uma cerâmica requintada sugerem uma cultura com ampla mão de obra e hierarquia social, com artistas semiespecializados, por exemplo.

Perto da fronteira com o cerrado, a região do Xingu guarda restos de amplas estradas, diques e paliçadas defensivas e manejo intensivo dos rios para a captura de peixes em larga escala. E o Acre conta com os misteriosos geoglifos, formas geométricas que podem ser vistas de avião e podem representar estruturas cerimoniais ou defensivas.

  Diego Gurgel/Divulgação  
Estrutura no município de Acrelândia, no Acre Um dos geoglifos da Amazônia; marcas no solo estão ligadas a sítios arqueológicos
Estrutura no município de Acrelândia, no Acre Um dos geoglifos da Amazônia; marcas no solo

Para gerações mais antigas de arqueólogos, tudo isso seria considerado impossível, por uma razão simples: o solo amazônico seria pobre demais para garantir a produção agrícola indispensável ao sustento de uma população densa. As descobertas mais recentes têm mostrado que esse cenário é simplista, diz Wenceslau Teixeira, pesquisador da Embrapa Solos e coautor da pesquisa.

“Um dos grandes problemas da agricultura tropical é a falta de uma reserva de nutrientes no solo. Chove muito e esses nutrientes são lavados -os efeitos da adubação não duram. Acontece que os caras [antigos habitantes da Amazônia] conseguiram criar um solo fértil nesse ambiente”, resume Teixeira.

TERRA PRETA

O nome dessa “arma secreta” da agricultura pré-histórica da Amazônia é terra preta -um solo escuro, como sugere o nome, e rico em matéria orgânica.

Calcula-se que ele cubra pouco mais de 0,1% da região -o que parece pouco mas, dado o gigantismo da área e a fertilidade da terra preta, foi o suficiente para impulsionar o crescimento populacional dos povos nativos.

Segundo o pesquisador da Embrapa, ainda não está totalmente claro como a terra preta era criada. “Provavelmente era um sistema de manejo de resíduos. Mais tarde, eles podem ter percebido o potencial desse solo para lavoura”, diz o pesquisador.

Entre os “ingredientes” estavam restos de animais consumidos pelos indígenas e carvão vegetal, queimado de forma controlada, que ajudava a reter carbono no solo.

Ele lembra, porém, que a terra preta não era uma panaceia generalizada -no Acre, por exemplo, apesar dos indícios de grupos com vida social complexa, ela não parece ter sido usada para turbinar a produção agrícola.

Assinam ainda o estudo Eduardo Neves, arqueólogo da USP, e o antropólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, entre outros especialistas.

  Editoria de Arte/Folhapress  
 
 

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Dewey (10576)

(11h20) há 5 horas

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O hábito de consumir carne humana de muitas tribos que habitavam o Brasil durante a chegada dos europeus, serviu de pretexto para subestimar a cultura e os conhecimentos que existiam localmente. Era comum que os navios que transitavam pela costa brasileira, se abasteciam dos peixes secos, da farinha de mandioca e das frutas que os indígenas produziam. A grande verdade é que o brasileiro moderno tem muito mais traços sociais dos indígenas do que dos portugueses.

 
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