HÉLIO'S BLOG

Início » COMUNICAÇÃO » A Dialética do Esclarecimento, de Thodor Adorno e Max Horkheimer.

A Dialética do Esclarecimento, de Thodor Adorno e Max Horkheimer.

Categorias

HÉLIO’S BLOG

#Divulgação Científica

Facebook , Twitter :@Heliosblog,  Linked

 Bicicleta 36

Resenha de Juliano Borges.

ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. (1985). A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

Em lugar do progresso, a barbárie. É essa a intimidante constatação que nos apresentam Adorno e Horkheimer em sua crítica à sociedade ocidental contemporânea e seu culto à técnica e à racionalidade. O esclarecimento, vertebração do projeto iluminista que pretendeu redimir o mundo pelo conhecimento, através da razão, forjou, ao contrário, uma sociedade repressora e totalitária. O processo de racionalização que sustenta a filosofia e a ciência, em lugar de libertar os homens, proporcionou-lhes o controle, a dominação pelo cálculo.

A Segunda Guerra caminhava para o fim quando a Dialética do Esclarecimento foi escrita, no exílio dos autores nos Estados Unidos. O mundo assistia chocado à destruição desenfreada proporcionada pela máquina de guerra sem ainda conhecer outros horrores como os campos de concentração. Diante do estágio mais baixo de degradação da humana, Adorno e Horkheimer não hesitaram em acusar a própria razão como causa da irracionalidade e do mal absoluto. Eis o paradoxo apontado pelos autores: é o culto à razão o responsável por lançar a sociedade para a barbárie. Contudo, o traço surpreendente de sua denúncia não estava em indicar a barbárie como prerrogativa exclusiva de regimes totalitários. O conhecimento teórico teria sustentado um processo de dominação e desumanização subjacente também às bases da democracia ocidental. Portanto, o fascismo, naquele momento o maior exemplo da radicalidade do mal, não se configuraria como reação histórica pré-civilizatória ao esclarecimento, mas um produto tão consistente quanto os encontrados em qualquer outra sociedade de consumo. O fenômeno não é um traço próprio de regimes autoritários, portanto, mas uma contradição característica do tipo de racionalização dos modos de produção do capitalismo, qualquer que seja sua forma de expressão política. A barbárie está, portanto, em toda a parte, esperando apenas uma oportunidade para mostrar sua face.

Para Adorno e Horkheimer, o programa iluminista radicalizou o papel tradicional do saber imaginando-o objetivo, neutro, e dirigido de maneira inexorável para a emancipação da humanidade. Assim, o controle da natureza é levado ao seu extremo por meio do desmonte do mito e da produção de verdades que retirassem dos homens o pesado fardo do medo e da incerteza do mundo, garantindo ordem e sentido à existência humana. “A matéria deve ser dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão de qualidades ocultas” (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p.9). As sociedades deveriam ser conduzidas de maneira objetiva, ordenada, tornando o mundo um lugar previsível. Eis a fórmula iluminista para salvar o homem da barbárie pelo esclarecimento. Controlar o mundo pela técnica, fazendo, cada vez mais, poder e conhecimento serem sinônimos. É, portanto, pelo desencantamento do mundo que se funda o projeto de modernidade.

No entanto, a dominação da natureza se converte com certa facilidade em dominação sobre os homens. Objetivada, a natureza se transforma em abstração e o sujeito onipotente, dono dos meios que a subjugam, enfrenta as incertezas do mundo com a pretensão de dominá-lo. A dominação da natureza por intermédio dos sujeitos portadores do saber, contudo, possibilita que o homem subordine o próprio homem, degradando-o como mero elemento daquela natureza dominada. Reconhecendo uma continuidade no uso da técnica, associada muitas vezes à violência, Adorno e Horkheimer percebem uma confusão entre pensamento e cientificidade. A modernidade acaba, pois, assimilando a última como única forma legítima de pensar e de ser, formando, aí, o seu tipo próprio de totalitarismo. Assim sendo, o sistema político-social a que estariam submetidas as sociedades seria indiferente. Capitalistas ou socialistas, fascistas ou liberais, quaisquer sociedades onde o princípio de dominação da natureza se manifestasse estariam sujeitas também à dominação sobre os homens. Conforme nos apontam, “o esclarecimento sempre simpatizou, mesmo durante o período do liberalismo, com a coerção social e a unidade da coletividade manipulada consiste na negação de cada indivíduo.” (idem, 13).

O esclarecimento seria, então, por princípio, ‘totalitário como qualquer outro sistema’, na medida em que submeteria a natureza e a sociedade, não importando suas qualidades, ao cálculo da quantificação, à lógica formal e à uniformização de suas atividades. E aí repousa sua maior contradição. A desconstrução do mito, que traria a liberdade por ‘investir os homens na posição de senhores’, pela superação da própria dominação, foi substituída, em nome de direitos universais, pela razão do mercado. Porém, o controle sobre a natureza não fora apenas mantido, mas agravado na forma de dominação sobre os homens. E o mercado tornou-se a instância privilegiada dessa modalidade de controle. Democrático na indiferença quanto às origens daqueles que nele vêm trocar suas mercadorias, o mercado exige, porém, que as qualidades individuais dos consumidores sejam também modeladas segundo o princípio último da produção das mercadorias. É aquela indiferença do mercado a mesma encontrada na ciência. Responsável pelo domínio da natureza, ela constrói um mundo à sua imagem e semelhança, segundo princípios de isenção e de indiferença científica. Sendo imparcial, o pensamento se converte em processo automático, reificado. Torna-se indiferente, perde sua capacidade de reflexão e não mais questiona seus próprios rumos ou a justiça de seus fins.

Por outro lado, sendo global e onipresente, o mercado dispõe da técnica necessária, fornecida pela ciência, para fazer dos homens engrenagens de seu motor, anulando-os, através do princípio econômico da concorrência total. A total administração da sociedade extingue o pensamento autônomo e reforça a uniformidade e a unanimidade em uma sociedade de massa, amorfa.

O objetivo do trabalho de Adorno e Horkheimer é compreender como a humanidade, ao invés de encontrar sua redenção pelo esclarecimento se degradou em sucessivos processos de autodestruição, caminhando para uma nova forma de barbárie. A supremacia da técnica cumpriu o cerceamento da imaginação teórica e ‘preparou o caminho para o desvario político’ (idem, 6). O procedimento matemático tornou-se o próprio ritual de pensamento, transformando-o em coisa, em mero instrumento. Imediatizada, a razão passou a se submeter ao factual e à sua repetição. O avanço científico, na medida em que capacitou tecnicamente a eliminação da miséria, trouxe, no entanto, seu crescimento, o que, para os autores, denunciaria como obsoleta a razão de ser da sociedade racional.

Funcionando nesses moldes, o esclarecimento é autodestrutivo porque requisitaria a coerção como suporte de uma igualdade fetichizada que pretende oferecer. Essa dominação defronta o indivíduo com a razão na realidade efetiva. Igualados no logos, o poder de todos os membros da sociedade acaba sempre por se agregar em um sentido uniforme, na divisão social do trabalho imposta pela instância do mercado, cuja racionalidade é mais uma vez reproduzida. E aquilo que ocorre a todos pela atuação de poucos se realiza sempre pela aparência de subjugação dos indivíduos por muitos. Ou seja, a dominação da sociedade tem sempre o caráter da opressão por uma minoria.

A falência dos valores humanistas se expõe na transformação dos indivíduos em seres genéricos, vazios, iguais uns aos outros pelo isolamento na coletividade, dominada pela força. O fascismo é o exemplo evidente de dominação pela força, sobretudo no momento em que a Dialética do Esclarecimento foi produzida. Ele foi capaz de extrapolar os limites da concorrência, convertendo-a em ‘apreensão total do homem’ pela regulação da livre troca capitalista e pela reinstauração do medo da barbárie que o esclarecimento pretendia contornar.

A derrota do inimigo fascista na Segunda Guerra e o fim dos regimes totalitários do Leste, no entanto, não anularam a falência do humanismo nas democracias liberais do Ocidente. O mérito de Adorno e Horkheimer foi o de adiantar, ainda durante a guerra, que a barbárie subjaz não apenas a sistemas de poder evidentemente totalitários, mas radica-se em toda forma de poder baseada no esclarecimento porque dele deriva, justamente, o vazio espiritual dos indivíduos e sua consequente dominação pela força.

Esse vazio acaba sendo preenchido pelos valores de mercado. Ocorre, então, um totalitarismo de mercado. Em lugar da formação humanista, a educação de massa. Esta não visa formar o espírito, como aquela, mas capacitar o indivíduo a viver nessa sociedade presidida pela técnica e pelos valores empresariais do lucro, da competição e do sucesso profissional. O sujeito só encontra seu lugar social quando se converte em consumidor. O fetiche da igualdade, comum a todas as sociedades ocidentais, democráticas ou não, proporciona um indivíduo tão genérico quanto os produtos que ele possa encontrar em um supermercado. Todos são idênticos na mediocridade espiritual. E as massas são impotentes nessa sociedade dirigida pelo princípio da coerção. E, à coação atribuída à natureza não dominada, manifesta-se a ‘total mistificação das massas’, promovida, justamente, pelo esclarecimento que antes viria para impedi-la.

Nas sociedades liberais, as paixões se convertem em interesses e todas as esferas da vida se determinam pelo fator econômico. Tecnicizada, a economia torna-se o braço prático do pensamento teórico. Coligadas, distantes dos indivíduos, economia e ciência, fundidas agora como se fossem uma instância única, consolidam sua supremacia sobre a sociedade contemporânea, determinando seus rumos com a mesma desfaçatez e impessoalidade de uma mão invisível.

À autonomia do mercado se contrapõe a total dependência do indivíduo. Ao lado da ‘invisibilidade’ das forças de mercado, no plano macro, está a monotonia do consumo permanente, no plano individual. A sociedade da administração total precisa do controle para persistir. O esclarecimento, que pretendia controlar a natureza, estrutura um poder que requisita cada vez mais força, forjando diversas expressões totalitárias.

Para Adorno e Horkheimer, o totalitarismo é capaz de produzir o homogêneo com o suporte de meios massivos de comunicação, complexo que chamaram de indústria cultural. Ramo produtor de mercadorias impregnadas de conteúdos simbólicos, os meios se localizam na interseção entre a infraestrutura e a superestrutura, promovendo ao mesmo tempo relações materiais de produção e formas ideológicas de dominação. Como indústrias, precisam atender a grandes contingentes de forma cada vez mais rápida e objetiva. Para isso, suas transmissões devem ser imediatamente compreendidas por todos, forçando-os a evitar a complexidade e a polissemia. Nesse contexto, essa precária forma de educação de massa, que substitui a formação humanista de outrora, reforça os elementos de passividade e semelhança, dentro de um sistema mais amplo de dominação. A semelhança trabalharia em função do consumo, enquanto a passividade em função da produção e do consumo.

Pelo lado da passividade, os meios de comunicação de massa despertam na audiência um conjunto de estímulos aos quais ela não é capaz de responder. Sem necessariamente impor convicções, indesejáveis nesse ambiente de superficialidades, a indústria cultural impede sua formação. Pelo lado da semelhança, há que se integrar as milhões de pessoas que de alguma forma participam dessa indústria, o que torna “inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais.” (idem, 113).

A indústria cultural é, pois, o último elo da cadeia de sujeição. Utilizando-se igualmente da técnica, ela trabalha para que o sistema se perpetue. Predomina a uniformidade e o consenso. A dominação está concluída. Diante do mercado todos são equivalentes, não há segregação de origens. Seu critério de exclusão é outro. Mas o mundo da equivalência é também o da indiferença. E a sociedade aceita bovinamente o intolerável. O princípio da indiferença, cujo ápice está na passividade da troca de mercadorias, é vivido como neutralização moral, criando um imenso abismo entre os avanços do conhecimento prático e o fracasso da iluminação moral. Desta lacuna saem os fenômenos que evidenciam a crítica de Adorno e Horkheimer.

Populações neuróticas, conflitos étnicos, perseguições raciais, a ascensão da criminalidade urbana, a miserabilidade material ou a decadência espiritual do homem contemporâneo se expõem como produto de um projeto fracassado. Prometendo a liberdade, foi capaz apenas de criar um sistema que restabeleceu novas formas de dominação. As luzes que libertariam o homem tornaram-no escravo de um saber que não mais lhe pertence. Igualados pelo estatuto da dominação e homogeneizados pelo mercado, os homens não têm espaço para a crítica. Uma sociedade alienada abraça um mercado acéfalo. O conhecimento imparcial forja a indiferença. Está pavimentado o caminho para a barbárie, e todas as suas expressões.

Juliano Borges é jornalista, professor visitante do Departamento de Teoria da Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: