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Patriotismo em Proudhon? O conceito de Lugar como justificativa.

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PATRIOTISMO EM PROUDHON?

O CONCEITO DE LUGAR COMO JUSTIFICATIVA.

“O Lugar permite pensar o viver, o habitar, o trabalho, o lazer enquanto situações vividas.” Ana Fani

Introdução

     Esse pequeno texto surge numa tentativa de explicar uma questão que se mostra pertinente na medida em que contribui para ampliar a gama conceitual e evitar uma aparente contradição que se pode verificar em algumas afirmações de Proudhon quando descreve seu amor pela pátria francesa. É partir de uma discussão geográfica sobre a observação do espaço que se utiliza do conceito de Lugar para definir o vínculo afetivo que o sujeito cria com o espaço, que será observado que essas contradições aparentes que encontramos em Proudhon então longe de ser um patriotismo convicto.

Proudhon e a Pátria Mãe França

     Uma das obras em que podemos tê-la como contribuição numa leitura histórica sobre o anarquismo é a de George Woodcock a História das Ideias e Movimentos Anarquistas Vol.1 e Vol.2 (2007). E é a partir dessa obra, mais especificamente o volume 1 (a ideia) que iremos trabalhar nesse artigo, a questão do patriotismo em Proudhon. Woodcock quando se refere a Proudhon o menciona como o homem dos paradoxos. Mas o que nos interessa mesmo é um parágrafo que podemos encontrar nessa obra. George escreve: “Pois esse internacionalista convicto, esse homem que odiava estados e fronteiras era também um regionalista apaixonado, um verdadeiro patriota que amava seu país e suas tradições.” (2007, p.119). Aqui observamos uma contradição com alguns dos princípios anarquistas sobre a questão da pátria. O anarquismo condiz com uma postura apátrida, isto é, a negação de uma Pátria Mãe, em um sentido político, a negação de um Estado. Nesse caso é de comum acordo com a hipótese de Vitoria Monteiro que escreve um pequeno texto sobre a questão da pátria e que menciona haver uma necessidade de “se diferenciar a “rejeição da pátria” da “rejeição da cultura de determinada região”. Rejeição da pátria não é rejeição de cultura. E por que negar a pátria como uma postura condizente ao anarquismo? A definição usual de pátria é a terra ou o país onde se nasce e vive, mas existe uma ressignificação de pátria que é apropriado pelo Estado, esse sentimento de pertencimento como bem observa Victoria:

“Este sentimento (pertencer a uma pátria), no entanto, torna-se mau dentro de um contexto de apropriação do mesmo por um Estado. Quaisquer ações passam a ser legítimas em nome do desenvolvimento da própria pátria: lutar por ela a partir das decisões do Estado passa a ser visto como um dever por aqueles que se postulam como fiéis a seus compatriotas e querem ver o desenvolvimento de seu povo.” (grifo meu).

Vale lembrar que a cultura brasileira, foi criada à partir da imposição de um Estado Brasileiro, dando um salto histórico (apenas para não fugir dos nossos propósitos) o que existia até então era povos da Matriz Tupi, pelo menos no nosso litoral e que segundo Darcy Ribeiro (2006, p.28): “Somavam, talvez, 1 milhão de índios, divididos em dezenas de grupo tribais, cada um deles compreendendo um conglomerado de várias aldeias de trezentos a 2 mil habitantes“. Ou seja, havia diversas culturas, etnias, modos de organização social e etc. A pátria não condiz necessariamente a uma cultura. Esses povos não compreendiam uma brasilidade, mas existia a percepção de pertencimento não a um país, mas um vínculo entre o povo e a terra, e aqui a terra equivale ao sentido de provedora de todas as necessidades para o desenvolvimento humano. A postura apátrida no anarquismo se refere a um internacionalismo, um mundo sem fronteiras.

Em continuidade na leitura de um parágrafo do livro de Woodcock ele escreve ainda sobre Proudhon:

“Ele podia rejeitar o Estado Francês como a qualquer outro estado por considerá-lo ‘um ente fictício, sem inteligência, sem paixão, sem moral’, mas era capaz de louvar a própria França com a mesma sinceridade e nos termos mais arrebatados: ‘oh, minha pátria, minha pátria francesa, terra daqueles que cantam a eterna revolução! Pátria da liberdade, pois, apesar da tua sujeição, em nenhum outro lugar do mundo – seja na Europa ou na América – podem as ideias, que são os homens, ser tão livres quanto em teu solo! Terra que eu amo como todo aquele amor acumulado que o filho que cresce sente por sua mãe”. (2007, p.119).

E aqui é levantada uma problemática. Estaria Proudhon se referindo sobre o seu país como um nacionalista exacerbado, um patriota fiel? Ou estaria ele se referindo a algo em que na Geografia compreendemos como lugar? Novamente, a questão do lugar como o vínculo afetivo o sujeito cria com o espaço. Portanto, surge a necessidade de trabalharmos esse conceito para chegarmos a uma consideração.

Lugar, uma definição conceitual a partir da ótica geográfica.

     O entendimento da geografia parte da análise do espaço. Mas existe uma gama conceitual que possibilita uma compreensão maior do espaço. Uma delas e que nos interessa para desenvolver esse trabalho é o conceito de Lugar. O que explica essa vivência acomodada, essa sensação de familiaridade que é característico dos lugares? O que define essa nostalgia quando visitamos o bairro em que crescemos, a escola que frequentamos, a padaria, a quadra de futebol? Segundo Ana Fani em seu livro Lugar no; do Mundo (2007) é o conceito de Lugar que fornece essa explicação: “É no lugar que se realiza o cotidiano“. (2007, p.14). Mas é possível esmiuçar um pouco mais. O lugar sobretudo possibilita pensar a articulação do cotidiano no espaço geográfico. (2007, p.14). Uma vez que existe uma produção social, uma produção do espaço, afinal, a produção do espaço é indubitavelmente uma reprodução da vida humana, e que a compreensão desses processo se dá a partir do Lugar que se coloca como uma parcela do espaço. (2007, p.14). Para Ana Fani (2007, p.14): “O lugar abre a perspectiva para se pensar o viver e o habitat, o uso e o consumo, os processos de apropriação do espaço. Ao mesmo tempo que preenchido por múltiplas coações, expõe as pressões que se exercem em todos os níveis.“, aqui podemos nos referir a apropriação, a apreensão do espaço pelo indivíduo. E enquanto sujeito, o indivíduo é tomado, envolvido pelo espaço no plano das cotidianeidades que é validado pelo Lugar. É a partir de uma ótica fenomenológica, é através do sujeito, isto é subjetivo que se apropria do espaço/Lugar pelo corpo que “o lugar se completa pela fala, a troca alusiva a algumas senhas na convivência e na intimidade cúmplice dos locutores.” (1994, p.14). Mas o Lugar fornece mais compreensão dessa relação indivíduo/espaço;Lugar, pois por sí próprio retém o seu significado e dimensões da dinâmica vivida, e que através da corporeidade dos indivíduos pode ser apreendida pelo sentidos, pela memória. É na contradição entre o global e a especificidade história do local (particular), é dessa articulação que o Lugar se produz. (2007, p.14).

     Mas o que vem a ser o Lugar na compreensão geográfica? Ao lugar se atribui elementos, uma tríade indissociável que são: Habitante(cidadão) – Identidade – Lugar. (2007, p.17). Habitante no sentido de habitat como um conjunto de condições organização e povoamento da qual o ser humano vive. A identidade como características que são própria do indivíduo. E o lugar não no sentido propriamente geográfico mas como um espaço da qual se pode ocupar. O lugar é portanto uma porção do espaço apropriado à vida e é experimentado pelo corpo, a exemplificar; o bairro, a casa, a rua, a praça (o caminhar), o supermercado (ir às compras), o veículo. A apreensão do lugar considera uma certa corporeidade como já havia sido mencionado (as nossas ações no espaço se dá pelo corpo). A construção, a sensação, a experimentação permite o acesso aos lugares, e o lugar portanto, se torna palpável.

     E como já mencionado, o Lugar possui dimensões. E podemos observá-lo de duas maneiras, um lugar visto de “dentro” e visto de “fora”. Para os nossos propósitos o lugar aqui será visto de “dentro”, e em uma muito breve descrição o lugar visto de “fora” é resultado do acontecer histórico. Ana Fani se utiliza de uma discussão miltoniana, a que também será utilizado nesse trabalho e que nos ajudará a compreender o Lugar visto de “dentro”. As dimensões atribuídas ao Lugar será subentendido como Densidade. As Densidades atribuídas ao Lugar são:

Densidade Técnica Qual o tipo de técnica, a família de técnicas que se utiliza na configuração atual do território. Atualmente se verifica o meio Técnico-científico-informacional e devido a isso deve-se levar em conta a densidade técnico-informacional estabelecido nesse lugar. O lugar portanto, se caracteriza pela influência da densidade técnica. (2007, p.17).

* Densidade Comunicacional Aqui se observa a interatividade entre as pessoas. O estreitamento das relações. O acesso as tecnologias informacionais. A velocidade de circulação das comunicações e das informações. (2007, p.17).

* Densidade Normativa Aqui se refere ao conjunto de normas, a função e o papel das normas, os códigos de acesso que para cada lugar são definitório. (2007, p.17).

E acrescento mais duas ao que me parece ser indispensável na definição das dimensões/densidades do Lugar.

* Densidade Temporal Ou seja, a dimensão temporal de cada lugar ou a ocorrência de eventos no presente e no passado que deixam a sua impressão.

* Densidade Histórico-Cotidiano É aqui que se forma realidade(s) no plano do vivido, do prático, das cotidianeidades que se produzem, o reconhecido, o conhecido, o ressignificado. Para Ana Fani (2007, p.19): “À dimensão cotidiana se atribui um conjunto de maneiras de ser, de afetos, de vivência/vivido que é particular a cada pessoa e que por isso mesmo é grande a gama de sentidos“.

É o Lugar que possibilita que haja o desenvolvimento da vida em múltiplas densidades/dimensões e a particularidade de cada um dos lugares se dá em função de culturas, de hábitos, de tradições característicos de um processo histórico contínuo. (2007, p.17). E a isso com ousadia chamo de Lugaridades, que é possível compreender o sincretismo de todas essas definições.

Considerações Finais

Feito uma breve sistematização do que vem a ser Lugar na ótica geográfica e também uma exposição de uma aparente contradição em Proudhon encontrada em Woodcock (2007) com o objetivo de demonstrar que Proudhon estava longe de ser um patriota convicto, é possível mencionar (evitando o anacronismo) que as afirmações de Proudhon longe de demonstrar um patriotismo convicto, era sobretudo, uma sensação cotidiana, uma singularidade característica de um vínculo afetivo que é traçado pelo indivíduo com o espaço explicado pelo Lugar, que nada tem haver com a Pátria e que longe de ser uma contradição, deve-se evitar o anacronismo de ideias e o que foi feito nesse trabalho é abrir uma possibilidade para uma correção conceitual.

Bibliografia

AUGÉ, Marc. Não lugares, Campinas: Papirus, 1994, p. 73.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O lugar no/do mundo. São Paulo: Labur Edições, 2007, 85p.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil – São Paulo – Companhia das Letras, 2006.

MONTEIRO, Victoria. Pátria. São Paulo, 2014.

WOODCOCK, George. História das idéias e movimentos anarquistas-v.l : A idéia/; tradução de Júlia Tettamanzy. – Porto Alegre : L&PM, 2007. 272 p.

Por Augusto Henrique (Atualmente é Professor Estagiário na instituição E.E. Escritor Juan Carlos Onetti. Estudante de Licenciatura em Geografia na Faculdade Sumaré e Pesquisador Bolsista de Iniciação Científica pelo FINPES na linha de pesquisa Geografia, Anarquismo e Pedagogia.)

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